Leitura para se informar e leitura para entender

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Trecho do livro: Adler, M. J., & Van Doren, C. (2010). Como ler livros: o guia clássico para a leitura inteligente. É Realizações.

Dado que toda leitura consiste em uma atividade, então toda leitura deve ser ativa. A leitura totalmente passiva é algo impossível – afinal não conseguimos ler com os olhos paralisados e com a mente adormecida. Por conseguinte, ao compararmos a leitura ativa com a leitura passiva, nosso objetivo será mostrar que a leitura pode ser “mais” ou “menos” ativa, e ademais, que quanto mais ativa, tanto melhor. Quanto maior a extensão e o esforço na leitura, tanto melhor será o leitor. Quanto mais o leitor exigir de si próprio e do texto que estiver lendo, tanto melhor ele será.

Você tem uma mente. Ora, suponhamos que você também tenha um livro – e que deseje lê-lo. O livro consiste em palavras escritas por alguém cujo objetivo é comunicar algo a você. O seu sucesso na leitura será diretamente proporcional àquilo que aprendeu do que o autor quis lhe transmitir.

Ora, isso é muito simples. A razão para esse fenômeno é que há duas relações possíveis entre sua mente e o livro, e não apenas uma. Essas duas relações são facilmente exemplificadas por dois tipos possíveis de leitura.

Vejamos. Temos o livro, e temos sua mente. À medida que lê, ou você entende perfeitamente tudo o que o autor tem a dizer, ou não. Se entende, talvez você tenha absorvida apensas informações, mas não necessariamente tenha progredido em entendimento. Se o livro é perfeitamente inteligível – do começo ao fim -, então o autor e você são como mentes fabricadas a partir do mesmo molde. Os símbolos impresso nas páginas seriam meras expressões do entendimento e que já lhes era comum antes mesmo de vocês se conhecerem.

Contemplemos a segunda alternativa. Você não entendeu o livro perfeitamente. Consideremos ainda que você entendeu o suficiente para saber que não entendeu tudo – o que, infelizmente, não é sempre o caso. Você sabe que o livro tem mais a dizer e, por conseguinte, que o livro contém algo que pode aumentar seu entendimento.

O que fazer? Você pode entregar o livro a outra pessoa, na esperança de que ela possa ler melhor que você, mostrando a ela os trechos que incomodam. (“Ela” pode ser uma pessoa viva ou outro livro.) Ou ainda você pode decidir que os trechos que estão além da sua capacidade de compreensão não são realmente importantes. Nos dois casos, você não está lendo da maneira exigida pelo livro.

A solução é uma só. Sem nenhuma ajuda externa, você tem de se dedicar melhor ao livro. Contanto somente com o poder da sua mente, você tem d operar os símbolos que estão diante de você a fim de elevar-se do “estado de entendimento inferior ao estado de entendimento superior”. Essa elevação consiste em uma leitura criteriosa – o tipo de leitura que todo livro desafiador merece.

Assim sendo, chegamos ao ponto em que somos capazes de definir, em linhas gerais, o que é a leitura ativa – é o processo por meio do qual a mente se eleva por contra própria, isto é, sem mais nada com que operar a não ser os símbolos contidos no livro. A mente deixa de entender menos e passa a entender mais. As operações técnicas que tornam possível tal elevação são os diversos atos que compõem a arte de ler.

A diferença entre ler para se informar e ler para se entender é ainda mais profunda. Vamos tentar nos aprofundar um pouco mais no assunto. Teremos de contemplar ambos os objetivos, uma vez que a linha que os separa é por vezes nebulosa. À medida que conseguimos distinguir entre dois tipos de leitura, empregamos a palavra “leitura” em dois sentidos distintos.

O primeiro sentido – ler para se informar – é o mais comum. É o que ocorre quando lemos jornais, revistas, ou qualquer coisa que os seja imediatamente inteligível – de acordo com a nossa capacidade e talento. Essas leituras aumentam nosso estoque de informações, mas são incapazes de aumentar nosso entendimento, já que este permanece inalterado. Caso contrário, teríamos sentido certa inquietação, certa perplexidade, pelo contato com algo que está acima de nossa capacidade de compreensão – contanto que tenhamos sido honestos e atentos.

O segundo sentido – ler para entender – é aquele em que a pessoa tenta ler algo que em princípio não entende completamente. Nesse momento, a coisa a ser lida é melhor ou maior que o leitor. O autor está comunicando algo que poderá aumentar o entendimento do leito. Tal comunicação entre desiguais tende ser algo possível, sob pena de ninguém nunca aprender nada com ninguém, seja oralmente, seja por escrito. Quando dizemos “aprender”, referimo-nos ao processo de entender amis – e não o processo de lembrar mais informações do mesmo grau de inteligibilidade das demais informações que você já possui

Quais são as condições para que esse tipo de leitura – ler para entender – aconteça? Há duas. Em primeiro lugar, deve haver uma “desigualdade inicial de entendimento”. O autor deve ser “superior” ao leitor em entendimento, no sentido de que seu livro de era capaz de transmitir de forma legível os “insights” que supostamente faltam ao leitor. Em segundo lugar, “o leitor deve ser capaz de superar parcial ou totalmente essa desigualdade” – quase nunca totalmente, mas sempre se aproximando da igualdade com o autor. Quanto mais próximo estiver da igualdade, tanto mais clara será a comunicação entre ambos.

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