O que é e como criticar – parte 3

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 Os quatro itens podem ser brevemente resumidos supondo-se que o leitor esteja conversando com o autor, ou seja, como se estivesse lhe respondendo ou fazendo comentários. Após dizer “entendi, mas não concordo”, o leitor poderá fazer estes comentários ao autor: (1) “Você está desinformado”, (2) “Você está mal informado”, (3) “Você é ilógico – seu raciocínio não é coerente”, (4) “Sua análise está incompleta”.

Talvez, mais tarde, você descubra que essas quatro observações não são exaustivas, mas achamos que são. De qualquer maneira, elas compõem as principais discórdias esperadas do leitor. Elas são mais ou menos independentes. Se você fez uma dessas observações não significa que não pode fazer outra também. Você pode comentar todas ao mesmo tempo, já que as falhas a que se referem não são mutualmente excludentes.

COMO JULGAR A SOLIDEZ DE UM AUTOR

As primeiras três observações são diferentes da quarta, conforme você provavelmente percebeu. Vejamos cada uma delas rapidamente e depois passaremos à quarta.

 

1.Dizer que o autor está desinformado é o mesmo que dizer que nele estão ausentes conhecimentos relevantes sobre o problema que tenta resolver. Observe que essa crítica só faz sentido se for relevante o conhecimento que falta ao autor. Para a crítica faça sentido, você deve ser capaz de declarar precisamente o conhecimento que falta ao autor, mostrando a sua relevância para as conclusões do problema e do raciocínio.

2. Dizer que o autor está mal informado é o mesmo que dizer que ele afirma algo que não corresponde à realidade. A falha pode resultar de alguma falta de conhecimento, mas não se trata apenas disso. A despeito da causa, o erro consiste em afirmar coisas contrárias aos fatos. O autor afirma que algo é verdadeiro ou provável quando, de fato, é algo falso ou improvável. Ele afirma possuir um conhecimento que não tem. Evidentemente, esse tipo de falha só deve ser apontado quando a questão for relevante às conclusões do autor. E não se esqueça: a falha não deve ser apontada, deve ser refutada mostrando a verdade (ou a maior probabilidade) do seu ponto de vista em relação ao autor.

Essas duas primeiras respostas críticas estão inter-relacionadas. Falta de informação, conforme vimos, pode ser a causa de afirmações equivocadas. Além disso, sempre que alguém está mal informado, ele também estará, de certa maneira, desinformado. Mas faz diferença observar a relevância do erro. A falta de conhecimento relevante torna impossível solucionar certos problemas ou sustentar determinadas conclusões. As suposições errôneas, contudo, levam a conclusões errôneas e as soluções insustentáveis. Tomados em conjunto, esses dois pontos levantam suspeitas contra as premissas do autor. Ele precisa de mais conhecimento do que possui. Suas evidências não são suficientes, seja em quantidade, seja em qualidade.

3. Dizer que o autor é ilógico é o mesmo que dizer que ele foi falacioso ao raciocinar. Em geral, há dois tipos de falácias. Há os non sequitur, ou seja, a conclusão não guarda relação necessária com as razões oferecidas. E há as inconsistências, isto é, quando o autor afirma duas coisas que são incompatíveis entre si. Para fazer uma dessas duas críticas, o leitor precisa ser capaz de mostrar onde, precisamente, a argumentação do autor carece de coerência. Só devemos nos ocupar dessas falhas à medida que elas afetem as conclusões principais do autor. Afinal o livro pode carecer de coesão em questões irrelevantes à conclusão.

Este terceiro aspecto crítico relaciona-se com os outros dois. O autor pode, obviamente, ter sido malsucedido ao extrair as devidas conclusões das evidências e princípios. Por conseguinte, o raciocínio estará incompleto. Aqui estamos preocupados sobretudo com o caso em que ele raciocina equivocadamente com base em premissas corretas. É interessante, mas não tão importante, descobrir sua falta de coerência ao raciocinar com base em premissas falsas o a partir de evidências inadequadas.

A pessoa que chega a uma conclusão inválida a partir de premissas válidas está, de certa maneira mal informada. Mesmo assim, vale a pena distinguir entre o tipo de afirmação errônea que decorre de raciocínio falho e o tipo de afirmação errônea que decorre de outras falhas, sobretudo de conhecimento insuficiente dos detalhes relevantes.

 

COMO JULGAR O GRAU DE COMPLETUDE DE UM AUTOR

As três observações críticas já consideradas lidam com a solidez das informações e dos raciocínios do autor. Vamos agora nos voltar à quarta observação. Essa se refere ao esmero com que o autor executou seu plano.

Se você não foi capaz de mostrar onde e como o autor está desinformado, mal informado ou ilógico, então simplesmente não pode discordar dele. Você tem de concordar. Você não pode dizer, como muitos alunos dizem por aí, que “não encontrei nada de errado nas premissas, nem no raciocínio, mas mesmo assim discordo das conclusões”. Do contrário, o que você estaria dizendo é que não gosta das conclusões. Você não está discordando, está expressando suas emoções ou preconceitos. Ora, se você foi convencido, então tem de admitir isso. (Se, mesmo não aderindo a nenhuma das três respostas críticas, você ainda se sente honestamente incapaz de se deixar convencer, talvez não devesse ter dito que entendeu o livro.)

4. Dizer que a análise está incompleta é o mesmo que dizer que o autor não resolveu o problema que se propôs a resolver, ou que não usou adequadamente o material de que dispunha, que não observou todas as devidas implicações e ramificações, ou que falhou ao distinguir os aspectos relevantes de sua empreitada. Não basta dizer que o livro está incompleto. Qualquer um conseguiria dizer isso. Os homens são finitos e, por conseguinte, suas obras também são. Portanto, essa ressalva só faz sentido se você for capaz de definir precisamente onde está a inadequação, seja por esforço próprio, seja com o auxílio de outros livros.

 

Os princípios da crítica ensinados por Adler referem a leitura de livros, mas considero que são aplicáveis em outros contextos, como os debates públicos e os trabalhos acadêmicos (monografias, dissertações e artigos científicos). Por exemplo, estes princípios, com as devidas ressalvas, podem nortear a elaboração da seção discussão na apresentação de um relatório de pesquisa. Em síntese, o que se recomenda é o desenvolvimento da habilidade de crítica para além da expressão das preferências e emoções pessoais.

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