A memória operacional pode ser treinada?

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Luiza Cury Muller

            Segundo Klingberg (2010), a memória de trabalho (MT) está diretamente relacionada ao desempenho em tarefas cognitivas.Apesar deste tipo de memória ser vista como uma característica constante, estudos recentes sugerem que ela pode ser melhorada por meio de treinamento prolongado e adaptação. Esse treinamento está associado a mudanças nas atividades cerebrais nas áreas referentes ao córtex frontal e parietal, gânglios basais, e receptores de dopamina. A transferência dos efeitos do treinamento para tarefas de MT não treinadas é consistente com a noção da plasticidade induzida pelo treinamento em uma rede neural comum para a MT. A observação dos efeitos de treinamento sugere que o treinamento para a memória de trabalho possa ser utilizado como uma intervenção remediadora para aqueles indivíduos cuja baixa capacidade de retenção da MT resulta em uma limitação para desempenhos acadêmicos ou para a vida cotidiana.

Klingberg (2010), ao se referir à memória de trabalho, define-a como aquela responsável pela retenção de informações durante um breve período de tempo, de modo a exercer fundamental importância no desempenho acadêmico e em variadas tarefas cognitivas. Devido aos inúmeros prejuízos observados em diversas condições neuropsiquiátricas, o registro de tentativas de melhorias nesse tipo de memória possui uma longa história. Em 1972, Earl Butterfield e colegas relataram uma série de estudos na tentativa de produzir melhoras na memória de curto prazo em indivíduos com deficiência de aprendizagem. Para tanto, utilizaram-se de estratégias de repetição subvocal; fato esse que conduziu alguma melhoria no desempenho dos participantes, porém, não foi registrada nenhuma evidência quanto à transferência dessa melhora a tarefas cognitivas não treinadas ou em atividades da vida diária.

Apesar desses e outros estudos colaborarem a manutenção da visão estática sobre a memória de trabalho, Klingberg (2010) mostrou que estudos subsequentes revelaram que o treinamento pode melhorar o desempenho em uma ampla gama de funções e que esta melhora está associada a alterações neuronais (desde o nível intracelular até a organização funcional do córtex).

Klingberg (2010) cita como exemplo um estudo realizado com animais, no qual após inúmeras testagens com treinamento motor e tarefas perceptivas, os resultados sugeriram mudanças na conectividade sináptica nas áreas sensoriais e motoras. Foi também registrado a notória presença da plasticidade cerebral no córtex pré-frontal desses animais.

De acordo com Klingberg (2010), esses tipos de treinamentos podem ser denominados de implícitos, uma vez que sua melhora é baseada na repetição, no feedback e em ajustes eventuais nas dificuldades das tarefas. Os treinamentos explícitos englobam o ensino de estratégias para melhorar o desempenho em tarefas que envolvam a MT (treinamento, “chunking” e estratégias meta-cognitivas), sendo assim consideradas como estratégias conscientes.

A grande questão de Klingberg (2010) consiste na possibilidade do treinamento da MT implícita poder ocasionar mudanças neuronais duráveis nas áreas relacionadas à MT. A hipótese apresentada pelo autor reside na ideia de que as conexões sinápticas que determinam a capacidade da memória de trabalho são regidas pelas mesmas leis da plasticidade em outras áreas do cérebro.

Klingberg (2010) apontou estudos de neuroimagem em seres humanos que mapearam atividades da MT em ambos os córtices de associação sensorial e pré-frontal. Os modelos de rede neurais sugerem que a forte conectividade frontoparietal é um mecanismo potencial por trás da imensa capacidade da MT, porém, sabe-se que o mapeamento da atividade neural durante a realização de atividades que envolvam a MT ainda é um trabalho em progresso.

Klingberg (2010) mostra que os modelos psicológicos da MT distinguem o armazenamento específico-sensorial desde a coordenação ou função controladora (classificado como executivo central ou atenção controlada). A atenção está, portanto intimamente ligada à MT. O controle da atenção é necessário para tarefas relacionadas à MT (por exemplo, na seleção de informações relevantes). Vale também ressaltar que a retenção de uma representação interna de uma localização saliente na MT é crucial para dirigir e manter a atenção para esse local. A base neural para a MT e a atenção controlada pode, dessa maneira, invocar os mesmos mecanismos de atividade de sustentação neural e excitação topdown, incluindo também as mesmas redes frontoparietal multimodal, sendo dessa maneira difícil ou impossível separá-las (mesmo em nível neuronal).

Dessa maneira, Klingberg (2010) defende que o efeito do treinamento em uma região cortical particular utilizando uma tarefa específica seria esperado para transferir melhorias para outras tarefas e funções, na medida em que essas tarefas dependem das mesmas redes neurais.

Um exemplo do que poderia ser denominado treinamento de MT implícita é o programa de treinamento desenvolvido originalmente por Klingberg e colegas para crianças com TDAH. Este treinamento envolve repetidas execuções de tarefas de MT, com feedback e recompensas baseada na precisão para cada julgamento. O tempo de treinamento eficaz é de 30-40 minutos por dia, 5 dias por semana durante 5 semanas (totalizando 15 aproximadamente horas). As dificuldades das tarefas são ajustadas durante o treinamento da MT e são baseadas na quantidade de informação a ser lembrada (valor esse próximo da capacidade do sujeito).

Utilizando o método desenvolvido por Klingberg e seus colegas, vários estudos mostraram melhorias em tarefas de MT que não faziam parte do programa de treinamento. Dois deles relataram efeitos de transferência em diferentes tipos de tarefas de MT, incluindo a complex span task, a qual possui dupla exigência de realização de uma tarefa ao mesmo tempo em que se mantém a informação em mente (mesmo apesar dessas tarefas não estarem inclusas no programa de treinamento). Em outro estudo, crianças da pré-escola realizaram um treinamento MT exclusivamente com tarefas visuoespaciais MT, e os resultados revelaram significativas melhorias em tarefas MT verbais, fato esse que demonstra a generalização entre modalidades.

Klingberg (2010), afirma que esses e outros estudos tomados em conjunto sugerem que os treinamentos de MT inspirado pelos métodos de treinamento perceptual aumentam a capacidade geral dessa memória, afirmação essa evidenciada pelo melhor desempenho em tarefas não treinadas. Os efeitos permaneceram significativos nas testagens após 3 e 6 meses. Estes resultados são assim consistentes com a noção de plasticidade induzida por treinamento em uma rede neural comum para MT.

Dessa maneira, o autor defende a premissa anteriormente exposta de que o treinamento da memória de trabalho pode induzir melhorias no desempenho em tarefas não treinadas dependentes da MT e do controle da atenção. Este efeito de transferência é consistente com a plasticidade induzida pelo treinamento em uma rede intraparietal- pré-frontal, a qual é comum para a MT e o controle da atenção. Treino adaptativo com foco no controle da atenção tem apresentado efeitos similares, e também, resultados promissores.

Por fim, Klingberg (2010) reforça a ideia de que a observação dos efeitos do treinamento da MT sugere a possibilidade de sua utilização como intervenção remediadora para indivíduos cuja baixa capacidade na MT é um fator limitante para o desempenho acadêmico/vida cotidiana.

É importante observar que os reflexos do treinamento induzido podem ser encontrados em diversas áreas, principalmente no campo educacional, uma vez que são encontradas melhorias na capacidade de lembrar instruções e na resolução de problemas matemáticos. Dessa maneira, ressalta-se a importância de promover a continuidade de estudos pertinentes a essa área, pois, além de esclarecer pontos acadêmicos, o treinamento da memória de trabalho poderá beneficiar a sociedade em questões práticas, de modo a funcionar como uma ferramenta a fim de aperfeiçoar e otimizar o sistema educacional vigente.

 

Referência Bibliográfica:

Klingberg, T. (2010). Training and plasticity of working memory. Trends in Cognitive Sciences, 14, 317-324.

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