Cuidados na avaliação neuropsicológica em idosos

Trecho do capítulo do livro Neuropsicologia Clínica Aplicada sobre a Avaliação neuropsicológica da depressão em idosos * elders

 

 

O aumento da estimativa de vida do brasileiro traz consigo a preocupação com a população idosa, pois nesse período da vida os declínios dos processos físicos e psicológicos que ocorreram ao longo da vida, se tornam mais evidentes. As perdas neuronais sejam elas perdas de eficiência ou a morte das células podem causar graves incapacidades e sofrimentos (STUART-HAMILTON, 2002). Os déficits cognitivos característicos dessa fase da vida também podem funcionar como indícios de outras patologias. Dentre elas, um dos principais problemas de saúde mental entre os idosos é a depressão, que acarreta declínio funcional, aumento da morbidade e da mortalidade (ÁVILA; BOTTINO, 2006). Nos idosos um dos principais fatores associado ao suicídio é reconhecidamente a depressão (OMS, 2006).

Junto com o aumento da população de idosos tem crescido o interesse dos profissionais da área de saúde em como diagnosticar e tratar a depressão. Esse interesse é devido às dificuldades em saber as causas e as influências genéticas e psicossociais além de como tratá-la (ÁVILA; BOTTINO, 2006). Hoje a compreensão da influência da relação de fatores biológicos, psicológicos e sociais tanto nas doenças físicas como nas mentais vem crescendo rapidamente. Isso traz a possibilidade de maior eficiência nos tratamentos (Organização Mundial de Saúde [OMS], 2001).

No caso de pacientes idosos com depressão, o profissional que realiza sua avaliação precisa estar atento às alterações cognitivas. Algumas alterações podem ser consideradas de caráter normal em pacientes idosos, mas outras podem ser consideradas patológicas (GUIMARÃES DOS SANTOS, 2000). Por exemplo: quando idosos apresentam dificuldades em avaliações de memória deve-se levar em consideração as condições do próprio envelhecimento ou que possam estar associadas com depressão ou com uma doença orgânica mais grave (DALGLEISH; COX, 2002).

O declínio natural das funções cognitivas (memória, aprendizagem e funções executivas), é característico do processo do envelhecimento fisiológico do sistema nervoso central (HAMDAN; CORRÊA, 2009). Porém em alguns idosos diagnosticados com depressão são observados déficits cognitivos que trazem questionamentos sobre o que causa o que é o que vem primeiro. Poderia a depressão levar ao desenvolvimento de déficits cognitivos ou seriam os déficits cognitivos os indícios de uma depressão (ÁVILA; BOTTINO, 2006).

A cognição é a capacidade de processar informações a utilizá-las na adaptação do ser humano ao seu meio e o meio a ele mesmo. Neste processo usa-se um conjunto de funções mentais como o pensamento, atenção, linguagem, memória, percepção, raciocínio lógico e a capacidade de julgamento crítico. Funções mentais estas que permitem que o conhecimento seja adquirido, registrado, relembrado e elaborado (ROCCA, MONTEIRO; FUENTES, 2009).

Ainda há dúvidas se a remissão dos sintomas da depressão levaria a remissão dos déficits cognitivos (ÁVILA; BOTTINO, 2006). A presença de depressão na população idosa aumenta ainda mais suas incapacidades devido à idade mais avançada. Inclusive porque muitas vezes ela deixa de ser detectada como uma patologia e seus sintomas passam a ser percebidos como um processo natural do envelhecimento (OMS, 2001). Hamdan e Corrêa (2009) alertam que as alterações encontradas na depressão devem ser bem investigadas porque muitas delas também são encontradas nos estágios iniciais da demência.

Algumas pesquisas associam a depressão diagnosticada num tempo mais tardio de vida como um risco aumentado para demência, outras atribuem à depressão uma característica prodrômica, sugerindo que ela é um sintoma precoce da demência (BROMMELHOFF, GATZ, JOHANSSON, MCARDLE, FRATIGLIONI; PEDERSEN, 2009). A idade mais avançada aumenta o risco de desenvolver certas perturbações, inclusive a Doença de Alzheimer. Somado a isso o fenômeno do crescimento da população idosa, as consequências são diretas para a saúde pública com uma grande carga social e econômica (OMS, 2001).

Shawn, Husain, Greer e Cullum (2010) apontam para as questões neurofisiológicas e neurobiológicas e suas correlações com o transtorno de depressão maior. Há a hipótese de que a depressão em idade avançada estaria relacionada com lesões vasculares nas conexões frontal e límbico que podem desregular o circuito da norepinefrina e serotonina. Nos quadros de depressão vascular é mais comum a associação à anedonia (incapacidade de sentir prazer) e aos déficits cognitivos (ÁVILA; BOTTINO, 2006). A estrutura do hipocampo que está relacionada com a depressão é particularmente vulnerável na população idosa, pois há redução nessa estrutura levando a alterações de comportamento (BICALHO, 2007).

Um dos estudos sobre a prevalência de sintomas depressivos em idosos no sul do Brasil demonstrou escores altos nos testes para essa população e quanto maior a idade, mais altos os escores para depressão (GAZALLE, LIMA, TAVARES; HALLAL, 2004). Somando-se também o crescimento percentual de idosos faz aumentar o interesse dos profissionais de saúde em diagnosticar e tratar (ÁVILA; BOTTINO, 2006) as alterações cognitivas, comportamentais, motivacionais, afetivas e fisiológicas (BECK, 1997) da depressão nessa faixa etária. O esforço é crescente dos profissionais de saúde em atender e cuidar dos idosos para que mantenham uma melhor qualidade de vida mesmo em idade avançada.

 

Referência:

Hamdan, A. C.  org (2014). Neuropsicologia Clínica Aplicada. Editora CRV.

neuroImagem

 

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