Avaliação neuropsicológica das funções executivas

As funções executivas (FE) tem sido objeto de interesse crescente de pesquisadores e do público em geral.

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Fatores de personalidade, funcionamento cognitivo e sintomas de depressão em idosos

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Dissertação de Mestrado de Valéria Gonzatti intitulada “Fatores de personalidade, funcionamento cognitivo e sintomas de depressão em idosos”, defendida na PUCRS.

Resumo:

Os fatores de personalidade relacionam-se ao funcionamento cognitivo de idosos e sintomatologia depressiva na velhice. O modelo dos Cinco Grandes Fatores é composto pelos fatores Extroversão, Amabilidade, Conscienciosidade, Neuroticismo e Abertura à experiência, sendo um dos modelos mais aceitos para investigar a personalidade. Altos índices de Neuroticismo associam-se com pior desempenho em tarefas cognitivas e Abertura à experiência parece ser um importante fator para a manutenção das capacidades cognitivas durante o processo de envelhecimento. Os fatores de personalidade não são estáticos ao longo do ciclo vital, demonstrando mudanças em períodos normativos do desenvolvimento humano. Desta forma, o objetivo principal dessa dissertação foi investigar a relação entre os Cinco Grandes fatores de personalidade, funcionamento cognitivo e sintomas depressivos em idosos. Buscou também analisar o papel da relação do funcionamento cognitivo e de sintomas depressivos nos fatores de personalidade de idosos; comparar a amplitude dos fatores de personalidade entre idosos e adultos; e verificar o papel das variáveis sociodemográficas (idade, escolaridade, renda, sexo e estado civil) nos fatores de personalidade de adultos e idosos. Considerando os objetivos desta dissertação, foram desenvolvidos dois estudos empíricos que tiveram delineamento transversal. No primeiro estudo, foram avaliados 72 idosos, com idades entre 60 e 85 anos, recrutados em grupos de convivência de Porto Alegre e Região Metropolitana. Os idosos responderam a uma ficha de dados sociodemográficos, a testes cognitivos que avaliavam atenção, memória e funções executivas, ao inventário de personalidade (NEO-FFI-R) e sintomalogia depressiva (GDS-15). No segundo estudo, a amostra foi composta por 151 participantes, sendo 78 idosos e 73 adultos, que responderam a uma ficha de dados sociodemográficas e ao NEO-FFI-R.Os resultados do primeiro estudo mostraram que os sintomas depressivos aparecem mais fortemente associados, em relação aos demais, a índices mais altos de Neuroticismo e mais baixos de Extroversão, Abertura à experiência e Conscienciosidade. Em relação ao funcionamento cognitivo, verificou-se que os idosos que apresentam pior funcionamento executivo, demonstram índices mais altos de Neuroticismo e mais baixos de Extroversão. No segundo estudo, observaram-se diferenças entre os fatores de personalidade de idosos e adultos. A faixa etária adulto obteve maior risco para classificação alta em Neuroticismo, Extroversão e Abertura à experiência. Por outro lado, os idosos apresentaram maior risco para classificação alta no fator Conscienciosidade. A partir dos resultados dos dois estudos, pode-se concluir que existe uma relação entre fatores de personalidade, funcionamento cognitivo e sintomatologia depressiva em idosos. Além disso, observou que os adultos diferem em relação aos idosos quanto à amplitude dos fatores de personalidade.

Para acessar a dissertação completa click no link abaixo:

http://hdl.handle.net/10923/7015

 

 

Autopercepção de que a memória está piorando pode ser um preditor para Doença de Alzheimer

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Um estudo de pesquisadores alemães publicado na Plos one constatou que preocupações de que a memória está piorando, em idosos com Comprometimento Cognitivo Leve (CCL) pode ser um fator preditivo importante para a Doença de Alzheimer.

Queixas subjetivas de problemas de memória, como esquecimentos, lapsos de memória no dia-a-dia ou dificuldades para aprender algo novo são frequentes entre idosos. O problema é que nem sempre estas percepções ou queixas subjetivas traduzem um declínio objetivo da memória observado em instrumentos de medidas padronizadas. Associado a constatação objetiva da perda da memória em testes neuropsicológicos é importante a coleta de informações com familiares ou pessoas próximas do avaliando, para corroborar a evidência de problemas de memória significativos.

A pergunta chave empregada no estudo para classificar idosos com e sem preocupações com a memória foi: “Você sente que a sua memória está piorando.” A pergunta foi lida dentro do processo de avaliação do paciente. As respostas possíveis eram: (1) “Não”, (2) “Às vezes, mas isso não me preocupa”, (3) “Sim, isso me preocupa”, (4) “Sim, isso me preocupa muito”. Somente as respostas (3) e (4) foram empregadas para classificar os idosos com preocupações com a memória.

A contribuição deste estudo está na observação de que pessoas com evidências de declínio da memória, como os idosos com CCL, a percepção subjetiva da piora da função cognitiva está associada ao desenvolvimento futuro da Doença de Alzheimer. Esta constatação tem implicações para a prática em neuropsicologia clínica – o cuidado que devemos tomar para não negligenciar as queixas de problemas de memória, em especial, quando há evidência de declínio da memória.

Referência

Wolfsgruber S, Wagner M, Schmidtke K, Frölich L, Kurz A, et al. (2014) Memory Concerns, Memory Performance and Risk of Dementia in Patients with Mild Cognitive Impairment. PLoS ONE 9(7): e100812. doi:10.1371/journal.pone.0100812

O último nocaute de Eder Jofre

Reportagem publicada no site Veja.com

Em Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, o patriarca José Arcadio Buendía inventa um engenhoso método para compensar uma peste, sucedânea da insônia, que engole o povoa­do de Macondo e apaga a memória dos cidadãos. Com um pincel começa a marcar em etiquetas o nome e a utilidade de cada objeto. No pescoço de uma vaca, uma placa informa: “Esta é a vaca que deve ser ordenhada todas as manhãs para produzir leite e o leite deve ser fervido para poder ser misturado ao café”. E seguia a vida, com mais de 14 000 bilhetes e a euforia da reconquista das lembranças. Na Macondo particular de Eder Jofre, um quarto tão simples quanto bem arrumado, de 2 por 4 metros, na casa da filha, no bairro de Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo, uma folha de papel A4 colada na porta do armário de madeira compensada avisa com letras femininas e carinho: “Eu, Eder Jofre, moro com a minha filha Andrea, o marido, Oliveira, e os filhos Lanika, Axel, Babi e Sidney. Moro aqui há nove meses. Quem cuida das minhas coisas são os meus filhos Marcel e Andrea. Estou morando aqui desde que minha esposa, Maria Aparecida Jofre (Cidinha), faleceu, em 10 de maio de 2013. Aqui sou lembrado dos meus remédios e compromissos. Pela manhã, após o café, tenho que me exercitar, desenhar e escrever. Depois do almoço descanso e desenho, com a mão esquerda. Depois do lanche me exercito e assisto TV. Depois do jantar volto a assistir TV até a hora de dormir”. É — ou deveria ser — leitura diária a caminho de jornadas árduas, de recuperação da consciência de quem é ou foi.

Pra continuar lendo, click O último nocaute de Eder Jofre – Notíciast VEJA.com.

Treinamento computadorizado pode melhorar o desempenho cognitivo em idosos?

computer  É lugar comum dizer que o idoso tem muita dificuldade  com as novas tecnologias, em especial, com o uso de  computadores. As dificuldades incluem a falta de  conhecimento necessário para realizar uma tarefa e a  ansiedade frente ao computador. Contudo, o segmento  da sociedade que mais cresce na utilização da internet (e  das redes de relacionamento social) é formada de  pessoas idosas. Há um conjunto de evidências de que no  envelhecimento humano ocorre um declínio das funções cognitivas (ver post anterior). Esta questão mostra a necessidade de conhecer se os idosos podem se beneficiar do treinamento cognitivo para melhorar as suas habilidades cognitivas.

Um estudo de revisão sistemática, conduzida por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins (EUA), analisou os diferentes tipos de treinamento cognitivo realizados em idosos e seus possíveis benefícios. Consultando diversas bases de dados (PsycArticles, PsychInfo, Pubmed, SCOPUS), os autores analisaram os artigos publicados num período de 25 anos (1984 a 2011), e selecionaram 138 artigos, dos quais analisaram 38 artigos que preencheram os critérios de inclusão (entre eles, participantes acima de 55 anos, sem diagnóstico de Doença de Alzheimer ou Comprometimento Cognitivo Leve). Os artigos foram agrupados em três tipos modalidades de treinamento cognitivo: Teste Cognitivo Clássico (n=21), Software Neuropsicológico (n=9) e Videogame (n=8).

Os autores encontram evidências de que os três diferentes tipos de abordagem para treinamento cognitivo oferecem benefícios para idosos saudáveis que vivem na comunidade. O tamanho do efeito (effect size) variou de 0,06 a 6,32, para treinamento cognitivo clássico; 0,19 a 7,14, para treinamento com software neuropsicológico e 0,09 a 1,70, para treinamento com videogame. Estes resultados são mais eficientes quando comparado com treinamento não computadorizado (por exemplo, treinamento com lápis e papel). Nas tarefas cognitivas tradicionais, o treinamento cognitivo melhorou o desempenho no tempo de reação, na velocidade de processamento, na memória operacional, funções executivas, memória, habilidade viso espacial e atenção. Os treinamentos que utilizam software neuropsicológico foram menos efetivos para treinamento da atenção e funções executivas. Porém, a pesquisa evidenciou maior efetividade no treinamento da memória e habilidade viso espacial. Por fim, os treinamentos que utilizaram videogame são mais efetivos no treinamento do tempo de reação, da velocidade de processamento e das funções executivas.

A conclusão deste estudo, para os autores, justificam a utilização do treinamento computadorizado em idosos. Os seus benefícios incluem a possibilidade de treinamento individualizado e de acordo com as necessidades pessoais de cada um. Este benefício, não requer familiaridade ou experiência prévia com computadores.

 

Referências

Kueider, A. M., Parisi, J. M., Gross, A. L., & Rebok, G. W. (2012). Computerized cognitive training with older adults: a systematic review. PloS One, 7(7), e40588. doi:10.1371/journal.pone.0040588