A neuroética e a Doença de Alzheimer

Por que o estudo da neuroética é importante para a Doença de Alzheimer? O estudo da neuroética é importante porque os avanços recentes na neurociência demandam respostas a dilemas que são essencialmente éticos. Por exemplo, o profissional de saúde deve ou não divulgar um diagnóstico de pessoas assintomáticas ou com sintomatologia mínima com donça de Alzheimer? Em que momento deve ou não interromper o tratamento paliativo em pacientes com Alzheimer avançada? Como tratar o problema do estigma social em indivíduos com Doença de Alzheimer muito leve? É moralmente aceitável utilizar aparelhos de estimulação cerebral para aprimorar o funcionamento cognitivo? Estas e outras questões demandam respostas que devem ser moralmente justificadas. Em síntese, O estudo da neuroética é particularmente importante porque auxilia a tomar as melhores decisões em relação ao diagnóstico e tratamento das doenças neurológicas e possibilitam orientar pacientes e familiares.

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O que é a Doença de Alzheimer?

A Doença de Alzheimer (DA) é uma doença neurodegenerativa que apresenta três características principais. Primeira, são as leões nos neurônios. Inicialmente, estas lesões ocorrem no córtex temporal, particularmente, nas regiões do hipocampo. Posteriormente, as lesões evoluem para outras áreas corticais, como o córtex frontal e parietal. As lesões ocorrem também nas regiões subcorticais. Segunda característica, o declinio das habilidades cognitivas. Inicialmente, o comprometimento ocorre para fatos recentes (memória recente) e, posteriormente, evoluem para as demais funções cognitivas. Entre as principais funções cognitivas afetadas estão a atenção, o raciocínio, a linguagem e a capacidade de tomar decisões. Terceira característica, comprometimento da vida social do indivíduo. A capacidade de autonomia do paciente fica severamente comprometida levando a total dependência de outras pessoas.

Autopercepção de que a memória está piorando pode ser um preditor para Doença de Alzheimer

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Um estudo de pesquisadores alemães publicado na Plos one constatou que preocupações de que a memória está piorando, em idosos com Comprometimento Cognitivo Leve (CCL) pode ser um fator preditivo importante para a Doença de Alzheimer.

Queixas subjetivas de problemas de memória, como esquecimentos, lapsos de memória no dia-a-dia ou dificuldades para aprender algo novo são frequentes entre idosos. O problema é que nem sempre estas percepções ou queixas subjetivas traduzem um declínio objetivo da memória observado em instrumentos de medidas padronizadas. Associado a constatação objetiva da perda da memória em testes neuropsicológicos é importante a coleta de informações com familiares ou pessoas próximas do avaliando, para corroborar a evidência de problemas de memória significativos.

A pergunta chave empregada no estudo para classificar idosos com e sem preocupações com a memória foi: “Você sente que a sua memória está piorando.” A pergunta foi lida dentro do processo de avaliação do paciente. As respostas possíveis eram: (1) “Não”, (2) “Às vezes, mas isso não me preocupa”, (3) “Sim, isso me preocupa”, (4) “Sim, isso me preocupa muito”. Somente as respostas (3) e (4) foram empregadas para classificar os idosos com preocupações com a memória.

A contribuição deste estudo está na observação de que pessoas com evidências de declínio da memória, como os idosos com CCL, a percepção subjetiva da piora da função cognitiva está associada ao desenvolvimento futuro da Doença de Alzheimer. Esta constatação tem implicações para a prática em neuropsicologia clínica – o cuidado que devemos tomar para não negligenciar as queixas de problemas de memória, em especial, quando há evidência de declínio da memória.

Referência

Wolfsgruber S, Wagner M, Schmidtke K, Frölich L, Kurz A, et al. (2014) Memory Concerns, Memory Performance and Risk of Dementia in Patients with Mild Cognitive Impairment. PLoS ONE 9(7): e100812. doi:10.1371/journal.pone.0100812

É “Mal de Alzheimer” ou “Doença de Alzheimer”?

alzEu prefiro Doença de Alzheimer. Por que? Por uma razão muito simples. A palavra “mal” para se referir está carregada de valores morais e sentimentos negativos. Segundo o dicionário Michaelis, o substantivo masculino “mal”, vem da palavra latina “malu”, podendo significar: 1) Tudo o que se opõe ao bem, tudo o que prejudica, fere ou incomoda, tudo o que se desvia do que é honesto e moral. 2) Calamidade, infortúnio, desgraça. 3) Dano ou prejuízo, na pessoa ou fazenda. 4) Qualquer estado mórbido impressionante, como a lepra, a raiva, a tuberculose etc. 5) Qualquer doença epidêmica ou reinante. 6) Achaque, doença, enfermidade. 7) Castigo, punição, expiação. 8) Tormento, mágoa, sofrimento. 9) Palavras contra alguém ou contra alguma coisa. 10) Inconveniente.

Por outro lado, doença, segundo o mesmo dicionário, é um substantivo feminino, também de origem latina (“dolentia”) que pode significar:  1) Falta de saúde, achaque, enfermidade, indisposição, moléstia. 2) Processo mórbido definido, com sintomas característicos, que pode afetar o corpo todo ou uma ou várias de suas partes.3) Mal. 4) Defeito, vício. 5) Mania. 6) Alterações patológicas das plantas. 7) Tarefa laboriosa ou difícil.

Claro que quando se trata de enfermidades, elas podem ser consideradas como sinônimos. Porém, acredito que a palavra “doença” está mais isenta de valores morais e sentimentos negativos. Por isso, prefiro definir Doença de Alzheimer como “uma doença que acomete o cérebro, de maneira progressiva e irreversível, levando da perda da memória e das habilidades do pensamento, que comprometem a realização de tarefas no dia-a-dia”.

Atividade física aeróbica pode melhorar a cognição e a capacidade funcional de pacientes com Alzheimer?

brain trainingUm estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e publicado na Revista Arquivos de Neuro-psiquiatria investigou se o exercício aeróbio pode melhorar a cognição e a capacidade funcional de pacientes com a Doença de Alzheimer (DA). Um grupo de 20 idosos com demência (16 com diagnóstico de Alzheimer e 4 com Demência mista) foram aleatoriamente distribuídos em dois grupos: o grupo de exercício (GE) e o grupo controle (GC). Os grupos foram distribuídos sem conhecimento prévio dos pesquisadores.

O GE foi submetido a atividade aeróbica utilizando-se um treinamento na esteira com duração de 30 minutos, 2 vezes na semana e durante 3 meses. A avaliação neuropsicológica foi realizada utilizando-se uma versão adaptada da escala Cambridge Cognitive Examination (CAMCOG). Outros instrumentos foram empregados para avaliar função executiva, atenção e concentração, flexibilidade cognitiva, controle inibitório e capacidade funcional. Os principais instrumentos foram: Teste do Desenho do Relógio, Teste de Fluência verbal (categoria animal), Teste de Stroop, Teste de Dígitos (Bateria WAIS-R) e Teste de Aprendizagem Auditivo Verbal de Rey. A capacidade funcional foi mensurada utilizando as seguintes escalas: Berg Balance Scale (BERG), Functional Reach (FR), Timed Up and Go test (TUGT), Modified Timed up and Go (TUGT MOD) e Sit-to-Stand test (STS).

Os resultados evidenciaram diferenças significativas entre os grupos no CAMCOG (p< 0,001), mas não em outras medidas neuropsicológicas. Em relação as medidas funcionais, os resultados evidenciaram diferenças significativas no BERG (p<0,001), FR (p<0,001) e TUGT (p<0,001). Todas as medidas neuropsicológicas e funcionais utilizadas apresentaram tamanho do efeito (effect size) que variaram de médio (0,38) a grande (1,58) para o grupo GE.

Os autores concluem que a atividade física aeróbica (treinamento em esteira) melhora o desempenho cognitivo e funcional de pacientes com DA. Estes resultados podem ser explicados pelo aumento da redistribuição do fluxo sanguíneo cerebral, pela ação protetora de fatores neurotrópicos do cérebro e pelo aumento da síntese e metabolismo de neurotransmissores.

A pesquisa apresentou resultados interessantes que necessitam de investigações futuras que corroborem os resultados encontrados. Algumas limitações do estudo são observados pelos próprios autores. O mais evidente é o número da amostra pequena, em especial a selecionada para a atividade física (n=10). Outra, refere-se a características dos participantes, composta de pacientes com DA leve. Além destas, algumas medidas neuropsicológicas e funcionais não apresentaram diferenças significativas entre os grupos, e principalmente, o tamanho do efeito, que apresentou uma variação muito grande (observado pelo intervalo de confiança-IC). Esse resultado sugere que os resultados também podem ser interpretados como tratamento sem efeito. Estas limitações são desafios para novas investigações.

 

Referência:

Arcoverde, Cynthia, Deslandes, Andrea, Moraes, Helena, Almeida, Cloyra, Araujo, Narahyana Bom de, Vasques, Paulo Eduardo, Silveira, Heitor, & Laks, Jerson. (2014). Treadmill training as an augmentation treatment for Alzheimers disease: a pilot randomized controlled study. Arquivos de Neuro-Psiquiatria72(3), 190-196. Retrieved March 31, 2014, from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X2014000300190&lng=en&tlng=. 10.1590/0004-282X20130231.